Era tudo preto. Viscoso. Melado. Não sabia onde estava, nem como fui parar lá. Podia ser petróleo, ou piche, não sei. Tentei nadar, mexer os braços, mas de nada ajudava, só fazia-me afundar mais e mais. Desisti e olhei em volta. Um carpete grosso cobria todos os horizontes que eu pensei distinguir.
Algo sólido me acertou. Sorri com a lembrança dos quarenta e tantos filmes de tubarão. Tateei o objeto, e pareceu-me seguro o suficiente. Abracei-o e suspirei tranquilamente. Estava feliz. Em um poço fétido e inescapável, rodeado por infinitos galões de preto-sei-lá-o-que, eu estava seguro.
Tentei subir no meu apoio, ver mais, mas não consegui achar nenhum jeito para fazê-lo. Atestei que se tratava de algo com um formato conhecido; se bem me recordo, aquilo era um A. Mal me posicionei novamente, recostado àquela letra, e já me aparecia outra, dançando um vai e vêm das diferenças de densidade.
Um O quase me atingiu, um M estacionou-se ao meu lado. As letras pareciam tão leves, dispostas, prontas para serem usadas. Depois de muito lutar com um R minúsculo, que se debatia contra a tinta preta, consegui sentar no derrotado. Era tudo tão calmo, parado. Até a brisa era monocromática, e pequenas gotículas escuras tingiam minha testa.
As letras aglutinavam-se em sílabas, artigos, preposições e, raramente, em conjunções. Fiquei imaginando para onde todas iriam. Talvez fossem tornar-se um recado de geladeira, ou uma assinatura de contrato. Talvez fizessem parte de uma resposta de vestibular, ou do rascunho de um doutorado. Talvez até uma carta de amor, ou, tragicamente, uma de suicídio.
Ri-me com os destinos incertos. Tão incertos quanto as esquinas que nós não cruzamos na vida desperdiçada do dia a dia. Prometi a mim mesmo que jamais deixaria as letras perderem qualquer caminho que fosse, que encontrariam o sentido procurado por mim.
Uma ponta metálica, refletindo o preto-veludo, começou a sugar tudo e todas para dentro. Logo antes de também ser tragado pelo bico da caneta, achei ter visto um A juntar-se com um MOR. Pouco importava, em 2 segundos já estava no papel. Haha. Foi assim o dia em que me tornei um pingo no i, bem no meio da paixão.
achei gracinha! mas não tinha essa opção de reação :p
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