sexta-feira, 17 de abril de 2009

Insegurança

O relógio arrastava-se. Meu turno não acabava nunca. A minha preguiça amassava os papéis sobre a minúscula mesa-travesseiro. Podia sentir os ponteiros estalando e arremessando poeira em sua odisséia. A minha liberdade estava a um vidro de distância, como podia ver naquela moldura-janela do quadro do parque.

Mesmo de longe e com detalhes trabalhistas atrapalhando-me, conseguia ver os distraídos transeuntes. Uns em direção ao serviço, outros em direção ao lazer e alguns que por falta de opção residiam no meio dos jardins. Um mendigo fazia de um punhado de folhas uma cama confortável e das pombas suas mascotes, eu podia sentir odores exalando de seu corpo e insetos sendo atraídos pelo mesmo. Estranhamente, uma criança brincava com as pombas e a suposta mãe olhava com indiferença. Um rapaz de agasalho se exercitava fazendo suas pernas carregarem seu imenso corpo.

Usando o grampeador de repercussão e uma caneta com papel de harmonia, criei música no vazio escritório. Distraí os minutos restantes do meu plantão. Despedi-me do computador, dos documentos assinados e dos morféticos cheiros de um cubículo masculino. Curiosamente ansiava pisar na praça, talvez minha mente quisesse cheiro de liberdade.

No elevador panorâmico, porém, consegui outra imagem daquele lugar antes desejado. Não havia mais suposta mãe e sim uma mulher vestida com roupas de assistente de mágico. Não havia mais uma criança serelepe, e sim um anão de circo, companheiro da artista pedinte. Não havia mais um rapaz, e sim uma mulher barbada e além das medidas normais de peso. Mantendo assim, apenas o hedonista, tépido e fétido mendigo.

Aquilo me embaralhou a mente, tinha tanta certeza das minhas conclusões iniciais. Desci no saguão vazio e enquanto abria a porta com minha chave de retardatário, pude ver não uma trupe de circo, mas sim uma família com trajes de domingo, sob o olhar marcante e irritante do mendigo.

Corri para a praça, ignorando visões ao longo da corrida. Topei com algumas estátuas e o mendigo incessante. Eu tive de indagá-lo. “Por que a praça me engana a visão constantemente?”. Ele respondeu. “O cenário muda, as personagens mudam, seus medos não”. Disse o mendigo, gêmeo meu, visão futura do meu desemprego.

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